Memorial da Escravatura e do Trafico Negreiro em Cacheu

O memorial da escravatura e do Tráfico Negreiro em Cacheu, agora inaugurado, é o culminar de um longo caminho cuja génese poderá ser encontrada em Novembro de 2010, aquando da realização do 1.º Festival Quilombola em Cacheu, com apoio da União Europeia no âmbito do projeto Percurso dos Quilombos.

Nessa data, e por iniciativa da ONGD guineense Ação para o Desenvolvimento (AD) e, em particular, do seu então diretor executivo, o Eng.º Carlos Schwarz, o nosso saudoso “Pepito”, teve lugar um acontecimento inédito e de suma importância: descendentes de antigos escravos, levados das costas da Guiné-Bissau para o Brasil, fugidos das plantações e engenhos, organizados em comunidades autónomas (os chamados “Quilombos”), visitaram as terras dos seus antepassados, numa celebração cultural das suas raízes ancestrais.

Face ao sucesso deste evento, e de forma metódica, desde logo a AD, em parceria com a AIN – Associazione Interpreti Naturalistici (representada pelo seu Presidente, Dr. Claudio Arbore), encetou os primeiros esforços no sentido de instalar um equipamento cultural permanente, que pudesse evocar a cruel realidade que foi o comércio de escravos, ao mesmo tempo que dinamizava, com as populações locais, iniciativas culturais e de apoio ao desenvolvimento.

O documento de síntese do projeto “Cacheu caminho de Escravos” foi entregue à União Europeia no dia 27 de Fevereiro 2012, vindo a ser aprovado no final desse ano.

Entretanto, com uma pequena verba da UNESCO, foi viabilizada a deslocação a Cacheu do Arq.º João Carrasco e do Dr. Victor Ramos (da Fundação Mário Soares) com vista a proceder ao levantamento arquitetónico de um edifício em ruínas – antiga Casa Gouveia, posteriormente Armazéns do Povo – onde hoje se encontra instalado este Memorial, e debater os próximos passos. Estavam lançadas as bases.

Assim, o Memorial da Escravatura e do Tráfico Negreiro em Cacheu pretende valorizar a memória de uma realidade que marcou profundamente os países africanos e ainda hoje permanece com grande acuidade nas sociedades dilaceradas pelo tráfico negreiro.

Inscreve-se também na procura da descentralização de oportunidades de desenvolvimento, mobilizando as populações locais pela criação de oportunidades aliciantes e convidando igualmente as populações dos centros urbanos e internacionais a redescobrir in loco a história e as riquezas da região de Cacheu e dos seus habitantes.

O percurso para a materialização do Memorial revelou-se contudo moroso. Assegurado o apoio financeiro da União Europeia e a cedência do edifício por parte do Governo Guineense (fevereiro de 2013), e encontrados os parceiros locais e internacionais (Cooperativa Agropecuária de Jovens Quadros, COAJOQ, Guiné-Bissau; Associazione Interpreti Naturalistici, AIN, Itália; Fundação Mário Soares, FMS, Portugal), iniciaram-se então os primeiros trabalhos de recuperação do complexo.

Tratando-se de um edifício histórico, tornou-se necessário implementar técnicas nunca antes usadas no país (como o encamisamento das paredes com uma lâmina de betão armado) e recorrer à aquisição em Portugal da maioria dos materiais de construção. Esta solução, imprescindível, tornou não apenas mais onerosa toda a obra, como sobretudo, e igualmente, mais demorada. Acresce que os técnicos responsáveis (Arq.ª Daniela Ermano, Arq.º João Carrasco e Eng.º Tiago Serralheiro) se encontravam em Portugal, vendo-se obrigados, por questões orçamentais e logísticas, a limitar ao mínimo as suas deslocações à obra.

A obra fez-se. Parcialmente. Importa referir que o edifício que hoje alberga esta exposição é apenas parte de um todo que incluirá igualmente um pavilhão multiusos, salas de formação e residências para investigadores, entre outras valências.

Sublinhe-se ainda que se pretende enriquecer este pequeno espaço museológico com contribuições da comunidade local, numa relação dinâmica e inclusiva. Estes trabalhos já começaram, novamente com o apoio fundamental da União Europeia, no âmbito do projeto Cacheu de si cultura i istoria.

Há mais de 500 anos partiram destas costas homens-mercadoria. Hoje, homens livres, esperamos contar aqui parte da sua história.

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